sexta-feira, 30 de julho de 2010

Histórias do Pina

Histórias do Pina

OSWALDO PEREIRA
Prefeitura do Recife | Secretaria de Cultura
Fundação de Cultura Cidade do Recife
Recife, 2008
Histórias do Pina
Copyright© Oswaldo Pereira da Silva

Prefeitura do Recife
Secretário de Cultura
Gerente Operacional de Literatura e Editoração
Heloísa Arcoverde de Morais
Revisão
Pedro Américo de Fárias
Projeto gráfico e Capa
Gerente de Serviço de Produção Gráfica
Lúcia Helena Neves Rodrigues
Fotos: Acervo Museu da Cidade do Recife e do autor
Direitos exclusivos desta edição reservados pela Fundação de Cultura
Cidade do Recife - Cais do Apolo, 925, 15º andar 50030-230 Recife PE
(81) 3232 2898 | 3232 2937 | gole@recife.pe.gov.br
Impresso no Brasil
ISBN 85-7044-180-6
P436h Silva, Oswaldo Pereira da
Histórias do Pina /Oswaldo Pereira da Silva. Recife:
Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2008.
54p. :il

1. Recife – bairro do Pina 2. Bairro do Pina - história
3. Pina – cultura e costumes sociais I. Título.
GOCPFC CDU 981 (813.4)
Aos meus familiares que sempre acreditaram
no meu esforço para a superação.


Fazendo história

O pesquisador e arte educador Oswaldo Pereira é um
profundo conhecedor das Histórias do Pina, apresentadas
neste livro publicado pela Prefeitura do Recife.
Oswaldo tem suas raízes fincadas no belo estuário
do Pina e entrelaça o amor pelo bairro onde mora à ativa
participação nos movimentos sociais e culturais daquela
comunidade.
Com o olhar atento às paisagens física e humana,
com a vivência das lutas e conquistas desse território de
manguezais e pescadores, o autor sabe das várias histórias
que, ao longo de séculos, vêm transformando a área do Pina
e a vida dos seus habitantes.
Segundo Antônio Paulo Rezende in Recife - Histórias
de uma cidade (FCCR):
A cidade e a cidadania podem ser vividas no sentido
de que as escolhas busquem assegurar condições
para que as definições da história não se limitem às
imposições de uma minoria. O olhar do historiador está
comprometido com essa abertura para o infinito, com a
certeza de que a história não é um desfilar de nomes e
datas, mas território de invenção e aventura que tem,
na cidade, um espaço privilegiado para a fabricação de
um cenário onde os personagens não se sintam como
fantoches, mas como produtores do seu próprio texto.
Agente de sua própria história, Oswaldo Pereira, em
Histórias do Pina, narra, com a precisão de pesquisador,
os percursos desse recanto litorâneo, aberto ao infinito. Aí
estão as marcas do tempo, as intervenções urbanísticas, as
mutações, humanas e desumanas, da ocupação do solo.
Acrescenta ao rigor da pesquisa histórica o entusiasmo
do arte educador, apaixonado por essa região litorânea
onde o mar é uma montanha, mais alta que os arrecifes.
Então, para o prazer do leitor, as histórias se multiplicam.
Adquirem o sabor e a inquietação de quem participa,
palmo a palmo, dia a dia, da cultura da gente do lugar.
Mergulhar nas Histórias do Pina, é ir ao encontro dos
vários tesouros de uma comunidade das mais vibrantes e
das mais politizadas da cidade do Recife, herdeira, em sua
bacia, das águas marítimas e fluviais, sabedora da sua
importância social e cultural.
Brava gente do Pina!
Heloísa Arcoverde de Morais
Recife, setembro de 2008


“A paisagem singular que se edificou ao longo da linha
da costa desde o século XVI permanecendo quase inalterada
até a segunda metade do século XX, paisagem
furta-cor, matizada de verdes, brancos e azuis, materializava
todo um processo histórico de povoamento e
ocupação do litoral. Sob a aparência de território do
vazio, de terras sem dono sem lei, escondiam-se formas
particulares de exploração econômica, de propriedade
e posse do espaço litorâneo, há muito solidificada. Formas
essas que criaram condições para a existência de
camadas sociais ligadas à pequena lavoura e à pesca:
jangadeiros, pescadores livres e escravos, sitiantes e
rendeiros, proprietários de terra, de currais de peixes
e embarcações” (ARAÚJO, 2007)


Nos primórdios do Brasil colonial, Olinda era a capital
de Pernambuco e o Recife, um pequeno povoado de
pescadores. O Bairro do PINA se constituía em ilhas e terras
alagáveis, na confluência dos rios Jordão, Tegipió e riacho
Pina com o Atlântico. Situado ao Sul do porto do Recife,
a localidade que viria a ser o bairro do Pina, foi logo habitada
quando da chegada dos colonizadores portugueses,
que lá instalaram a Fazenda Nossa Senhora do Rosário da
Barreta. A fazenda dos Jesuítas, na ilha mais alongada à
beira-mar no sentido norte-sul, tinha uma casa-grande,
capela, uma grande senzala, plantações de coco, frutas e
verduras. Servia para o recreio e para abastecimento do Colégio
dos Jesuítas do Recife. Em frente à praia , os Jesuítas
edificaram um Nicho com a imagem de Nossa Senhora do
Rosário, a padroeira do bairro, trazida de Portugal. No norte
dessa ilha, havia a ilha da Barreta, que ficou em poder do
português André Gomes Pina e seu irmão conhecido como
Cheira Dinheiro; onde instalaram um armazém – Estância,
para o comércio de açúcar com a Europa.
Explorando a mão-de-obra escrava, os irmãos Pina
se beneficiavam dos serviços de negros foragidos, que atravessavam
a Bacia do Pina para se embrenhar nos manguezais
e viver da pesca.

A formação de uma comunidade de negros pescadores,
vivendo em relativa liberdade naquelas ilhas justificava-
se pela dificuldade de acesso ao local e a necessidade
de mão-de-obra disponível para os serviços de exportação.
A predominância de afro-descendentes nesse bairro são
traços percebidos ainda hoje na população do Encanta
Oswaldo Pereira 11
Moça, na comunidade do Bode e da Ilha de Deus (parte de
dentro do bairro).

Entre ilhas e marés, os irmãos Pina viviam do comércio
de açúcar; os seus nomes foram usados pela população
para identificar as ilhas onde eles moravam: Ilha do
Cheira Dinheiro e Ilha do Pina. Dentre as seis ilhas, a mais
conhecida foi a ilha do Cheira Dinheiro; também chamada
de Fernão Soares e de ilha da Barreta por estar próxima da
Barreta das Jangadas, uma abertura natural nos arrecifes,
por onde passavam as jangadas dos pescadores. As outras
ilhas eram a das Cabras, ilha do Bode, da Raposa onde no
século XX, instalaram a rádio da Marinha e a Ilha do Felipe
onde funcionou a destilaria da Bacardi. Mas o nome que
predominou foi PINA.

Os Holandeses invadiram Pernambuco em 1630.
No intuito de conquistar o Forte de Afogados as tropas invasoras
ocuparam as ilhas do Pina, forçando a população
a debandar para os redutos de resistência nas terras do
Engenho Muribeca em Jaboatão dos Guararapes.
Conta-se que por ocasião da invasão holandesa em
Pernambuco, os irmãos PINA fugiram atravessando
o braço do rio que separava a Ilha do Pina da localidade
hoje denominada “Boa Viagem”; na altura do 1º
Jardim, numa das margens, eles enterraram um baú
com toda fortuna acumulada em anos de exportação
de açúcar para a Europa. (SILVA, 1990)

Em 1645, no início do período conhecido como Restauração
Pernambucana, dois pescadores pernambucanos
partiram daquela ilha numa jangada e incendiaram dois
navios holandeses no porto, um dos pescadores se chamava
João Tavares, conhecido como “O Muribeca”. Por causa
desse ataque, os holandeses resolveram construir o fortim
Schoonenburg no Pontal do Pina, para defender o flanco
sul do Porto.

A população só voltaria a morar nas ilhas do Pina
quando as forças pernambucanas desceram os montes
Guararapes, sitiaram o porto, montando acampamento
nas ilhas, sendo esse fortim incendiado pelos invasores em
fuga, forçados a retirar-se para o Forte das Cinco Pontas,
onde o comandante holandês assinou a rendição em 26
de Janeiro de 1654. Acampados nas ilhas do Pina, muitos
dos guerreiros trouxeram suas famílias para comemorar a
vitória contra o invasor, em três dias de batuque na praia
onde foram estabelecendo moradia.

Após a expulsão dos holandeses, a paisagem natural
da região litorânea conhecida como Pina; composta de uma
fazenda com extenso coqueiral, sítios de fruteiras, com uma
praia ampla e calma, voltou a servir de área de produção
de pescado, coco, frutas, couro e confecção de embarcações
para a povoação do Recife.

A partir do início do século XVIII, a ilha do Cheira
Dinheiro ou da Barreta passou a se chamar de ilha do
Nogueira, por causa do nome do sargento-mor Antonio
Nogueira de Figueiredo, morador e dono de um curtume
de sola ali localizado.

Em 1711, durante a Guerra dos Mascates, na tentativa
de sitiar o povoado do Recife, as tropas do partido da
nobreza de Olinda ocuparam a Ilha do Nogueira, ficando
sob o comando do Alferes Antonio Bezerra, das ordenanças
de Ipojuca, que morreu lutando corajosamente durante um
assalto de duzentos Mascates à ilha. Muitas batalhas se
seguiram; foram três longos anos de guerra entre os nobres
portugueses de Olinda e os Mascates do Recife até que os
pernambucanos conquistaram a condição de Vila para o
povoado do Recife.
As características físicas das ilhas, cercadas de denso
manguezal, propiciavam o isolamento dessa localidade
tão próxima do Recife. A Fazenda da Barreta à beira-mar, na
ilha do Pina de Dentro, por longo período produziu alimentos
para os padres; foi vendida pela Fazenda Real quando os
Jesuítas foram expulsos do Brasil em 1761. Posteriormente,
a parte das terras correspondente à Ilha do Nogueira
foi passada para a Santa Casa de Misericórdia, por doação
testamental de José Bento Fernandes em 1817.
Anos mais tarde, o Visconde do Livramento pediu o
aforamento do terreno de marinha correspondente ao Pontal
do Pina, incluindo o Sítio do Pina de Dentro onde se localizava
a casa grande, sede da antiga Fazenda da Barreta;
recebendo a concessão em seu favor em 25 de abril de 1872.
A partir daí, a casa grande foi utilizada para veraneio da
família do então Barão do Livramento. Ao longo dos anos,
o contorno das ilhas foi desaparecendo, motivando José
Moreira de Araújo Livramento e sua esposa, a moverem
em 1925, uma ação contra a Santa Casa de Misericórdia,
reivindicando parte da Ilha do Nogueira, visto que os aterros
já não mais permitiam distinguir uma ilha da outra. Essa
ação durou anos, tendo a Santa Casa de Misericórdia ganho
a causa, ficando detentora dos aforamentos de parte significativa
do bairro e anexando outras áreas de acréscimo.
Justifica-se o interesse por essas terras, pois nesse período
o governo planejava grandes intervenções infra-estruturais
que viriam a modificar e valorizar essa área.
Em 1849, por decisão ministerial, a Capitania dos
Portos anunciava a realização das obras de melhoramento
do porto do Recife, com a construção do dique do Nogueira;
um molhe de pedras que fechou a Barreta das Jangadas
para proteger o porto das partículas de areia trazidas do
mar, fazendo a ligação da ilha do Nogueira aos arrecifes
naturais; com o objetivo de obter uma maior profundidade
no porto e permitir a circulação de embarcações de maior
calado.
Desencadeado o plano de desenvolvimento e modernização
do Recife, o atual bairro do Pina foi inserido no
processo de apropriação do espaço urbano da cidade com o
reaparelhamento do porto, a construção do dique da ilha do
Nogueira, aterros e o fechamento da Barreta das Jangadas.
A Capitania dos Portos instalou as oficinas no bairro do
Pina, para a conservação de máquinas, montagem dos trilhos
para a passagem dos trens que transportavam pedras
para a construção do dique; reparo de navios e construção
de pequenas embarcações. Nesse contexto, as obras do porto
ajudaram a consolidar a ocupação territorial do Pina pelas
camadas populares, com a oferta de trabalho e a construção
de casas de madeira para os seus funcionários, atraindo
outros moradores que a procura de trabalho foram morar
naquela localidade, esse processo provocou um sensível
acréscimo populacional.
As pedras para a construção do dique foram transportadas
das pedreiras de Comporta (Jaboatão), sob a linha
férrea que atravessava toda extensão da praia do Pina. Com
a construção do dique e o fechamento da Barreta, os pescadores
que moravam na Rua da Jangada (Cabanga) foram
privados do acesso ao mar de fora e resolveram mudar-se
para o Pina fazendo daquela praia porto de jangadas; alguns
pescadores permaneceram na Rua da Jangada, passando
suas embarcações daí por diante pela Barretinha no 1º Jardim,
onde o Rio Pina se lançava ao mar separando o Sítio
do Pina de Dentro do atual bairro de Boa Viagem.
Por conta da mudança dos pescadores para aquela
localidade e a chegada de novos moradores, a Santa Casa de
Misericórdia, preocupada com o crescimento desordenado
das ocupações, delegou no final do século XIX, ao Coronel
João Fernandes Guedes, o controle das concessões de uso
das suas terras no Pina.
Nessa época, algumas mudanças ocasionadas pelos
aterros já refletiam na paisagem, que se compunha de praia
com piscinas naturais, um extenso coqueiral, sítios de fruteiras
e pequenos aglomerados de casas de palha; mangue,
viveiros e a maré. A vegetação nativa se constituía de pés de
carrapicho, feijão de boi, guandu, guagiru, olho de pombo;
da maré provinham os peixes, mariscos, os caranguejos,
“as cachadas de ostras para fazer o escabeche e alimentar
a população pobre que só precisava da farinha, o sal era
retirado das pedras da praia”. (SILVA, 1990).

As casas dos pescadores eram poucas, feitas de pau
de mangue com as paredes e o telhado de palha de coqueiro.
A população das ilhas do Pina alem dos funcionários do porto,
era constituída basicamente de pescadores jangadeiros,
marisqueiros, canoeiros e ex-escravos, gente sem qualificação
profissional, expulsa de outras áreas mais centrais da
cidade do Recife, que encontravam naquele local, pescaria
abundante para subsistência da família.
“O Coronel João Guedes ficou posseiro em nome da
Santa Casa, era tudo no nome dele, pegava dois mil
Reis, dava a ele, podia cercar, ele fazia a cobrança
em nome da Santa Casa de Misericórdia, um hospital
que ninguém nunca viu” segundo Hermínio Soares,
morador do Pina, o Hospital era como “perna de cobra”.
(SILVA,1990)
No final do século XIX, as únicas edificações de
alvenaria eram: a casa grande, antiga sede da Fazenda da
Barreta que se tornara casa de veraneio do Barão do Livramento,
as ruínas do forte holandês, o Lazareto, a casa do
Coronel João Guedes e as oficinas do porto. O mais eram
casas de palha, dispostas em pequenos aglomerados nas
áreas mais altas, os troncos de coqueiro serviam de pontes
ligando as ilhas.

Em Relatórios do Estado Sanitário da Província de
Pernambuco registra-se em 1843, a existência na Ilha do
Pina, de uma casa térrea de alvenaria composta de duas
salas e quatro quartos pequenos, chamada de Lazareto e
uma outra de madeira na ilha do Bode; sendo a primeira
para receber em quarentena os doentes de febre amarela e
a segunda para receber doentes contaminados com bexiga,
transportados de barco do Recife.
Por determinação do estado em 1853, foi ampliado
o Hospital Lazareto do Pina, para receber em quarentena
os doentes contagiosos e escravos trazidos da África contaminados
com a Peste. Muitos homens negros morreram no
Lazareto e foram enterrados no cemitério próximo aquele
hospital; outros foram ficando naquela localidade, debilitados
por doenças e abandonados pela sociedade escravista.
Os sanitaristas da época, acreditando que os ventos
soprados do Sul levavam a peste para o Recife decidiram
então desativar esse hospital transferindo-o para o istmo
de Santo Amaro, no entanto, o Lazareto permaneceu em
funcionamento no Pina até 1902.
Em 1888, com o fim da escravidão, a população
“livre” não tendo mais as senzalas de seus antigos proprietários
como moradia, ocupou as terras alagadas do
Recife, dando início ao crescimento populacional desse e
de outros bairros, onde construíram grande quantidade de
mocambos.
O processo de ocupação e transformação do meio
ambiente natural, no qual se constituiu o Bairro do Pina,
ocorreu primeiramente nas áreas de terra firme, próximo aos
portos dos jangadeiros, com uma ocupação sem delimitação
de lotes, acomodando-se às condições da topografia da área.
Entre as décadas de 1910 e início de 1930, começaram os
primeiros adensamentos, configurando os arruados e a definição
das primeiras quadras ou quarteirões. As edificações
definiam a limitação das ruas, a ausência de cercas indicava
que a habitação se constituía em valor de uso e a posse do
terreno não representava um elemento da preocupação dos
moradores naquela época.
Na fase inicial dessa ocupação, os sítios eram desmembrados
para dar moradia a um parente, um familiar;
a solidariedade fazia parte do processo de ocupação e
sempre aparecia um espaço para quem chegava. Com o
adensamento populacional nas áreas de terra firme, as
novas habitações passaram a ser construídas nas áreas
alagadiças; as técnicas de construção foram desenvolvidas
adaptando-se à realidade do terreno e aos materiais disponíveis.
Uma das técnicas empregadas no Pina para o aterro
de áreas alagadas era original, primeiro construía-se um
retângulo de tábuas encravado no chão e ia-se colocando
lama até atingir a altura das tábuas; no processo, a água
escorria e o chão de terra batida estava pronto para receber
a casa de palha.
Em Pernambuco, no período correspondente a 1840,
1920, ocorreu a introdução pela classe dominante do hábito
de tomar banhos salgados nas praias; cultura européia difundida
através de visitantes estrangeiros; foi incorporada
em princípio pelas elites com finalidade terapêutica, essa
prática propiciou a expansão urbana das cidades litorâneas
do Recife e Olinda, transformando as praias que serviam
anteriormente de depósito de dejetos e lixo, em local de
cura para enfermidades, lazer, esportes e convívio social.
A expansão e valorização do espaço litorâneo, provocada
por uma mentalidade modernista urbana, foi definitiva nas
transformações sócio-econômicas, culturais e urbanísticas
das cidades, motivando o poder publico a construir estradas
e pontes, permitindo o acesso às praias dos Milagres e Carmo
em Olinda e às praias do Pina e Boa Viagem no Recife.
No início do século XX, período em que os recifenses
efetivaram o hábito de tomar banho de mar, fazendo do Pina
um agradável local de veraneio, onde alugavam por temporadas
as casas dos pescadores, o Conselho de Salubridade
Pública do Estado elaborou em 1908, um parecer no qual
apontava a necessidade da construção de uma nova rede
de esgotos para o Recife. O Plano de Esgotamento Sanitário
do Recife foi elaborado em 1909, sua execução iniciada no
ano seguinte, no Governo de Herculano Bandeira, o projeto
sob a coordenação do engenheiro Francisco Saturnino
Rodrigues de Brito, lançou o emissário de esgoto que atravessou
sobre o Rio Pina, numa ponte de ferro e lastro de
madeira medindo 715 metros de extensão; trazendo dois
tubos de esgoto que cruzaram as terras do Bairro e despejaram
dejetos nas águas da praia do Pina, prejudicando a
população local e afastando os veranistas. Essa estrutura
ligou o bairro à cidade; a ponte serviria também para a
travessia de transporte de tração animal, automóveis e
abastecimento de água.
A cidade do Recife ganharia um sistema de saneamento
moderno; já o bairro do Pina, local de moradia de
trabalhadores pobres, pescadores, funcionários das obras
do porto, operários, empregadas domésticas, lavadeiras,
biscateiros e prostitutas; gente que em nada seria contemplada
com uma obra pública desse porte.

O investimento fora direcionado para a classe mais abastada do Recife, a
comunidade afro-descendente, vivendo o privilégio de morar
na praia do Pina que se firmava como área de veraneio,
seria estigmatizada pela população da cidade em virtude
dos esgotos que poluíram suas águas.
A industrialização do início dos anos 1900, desencadeou
um surto de investimentos no país; propiciando
um novo período de modernização das cidades, a partir de
transformações sociais que modificaram substancialmente
a vida do povo brasileiro. Prioritariamente, foram aplicados
recursos no setor público, o saneamento básico, a pavimentação,
o transporte e setores de serviços receberam
investimentos melhorando a infra-estrutura e a vida social
das cidades; o desenvolvimento alterou substancialmente
as relações de trabalho entre patrão e empregado, com o
advento da indústria, criou-se uma classe operária assalariada,
que pouco a pouco foi absorvendo novos hábitos
de consumo.

Iniciadas a partir de 1909, as novas obras de modernização
do porto exigiram o aumento da muralha de
proteção por sobre os arrecifes, executada a partir da
confecção dos blocos de concreto nas Oficinas do Porto
que instaladas no Pina, atendiam à demanda dos serviços
de reparos das máquinas, dos trens de carreira e manutenção
dos navios. O cimento para as obras era trazido da
Noruega em barricas de madeira e o Coronel João Guedes
vendia as barricas para os moradores construírem casas.
Eles compravam as barricas, desmanchavam-nas e faziam
as paredes e até o telhado com as tiras de taboas.

As Oficinas do Porto trouxeram mais operários para morar no
Pina, alguns engenheiros também se instalaram em casas
construídas no canteiro de obras.
A oferta de trabalho motivou a chegada de outros
trabalhadores, o Coronel João Guedes, durante anos, se
utilizou da força para impor a autoridade e manter o controle
populacional do bairro; proibindo a construção de novas
casas. Até que um morador derrubou dois coqueiros para
construir sua morada; se indispondo com João Guedes, que
embargou a obra, resultando em um conflito que levou o
pescador a assassinar o Coronel Guedes quando este se
dirigia para a feira de Afogados.
As reformas e ampliação da ponte do Pina, em 1922,
propiciaram o seu alargamento facilitando a passagem de
veículos, estruturando-a para receber o Bonde; até então
pela ponte só podia passar um veículo de cada vez. A posteação
trazendo iluminação para o bairro e eletricidade
para os bondes era disposta sobre a ponte e se estendia ao
longo da Avenida de Ligação em forma de T, dividindo a via
em dois sentidos.

“Corria assim os dias de veraneio no Pina e em Boa
Viagem, quando o então governador do Estado Sergio
de Teixeira Lins de Barros Loreto, tomou uma resolução
que modificaria profundamente no presente e mais
ainda no futuro, a fisionomia das praias situadas no
litoral sul do Recife: construir uma avenida à beiramar...”
(ARAÚJO 2007).

As obras de urbanização das praias do Pina e Boa
Viagem foram iniciadas em 8 de outubro de 1923, quando
os trabalhadores começaram a construção da Avenida de
Ligação, (atual Av. Herculano Bandeira) interligando a
Ponte do Pina à futura Avenida Beira-mar.
Segundo L. Gomide, Revista de Pernambuco (novembro
de 1925).

“Em 8 de outubro de 1923, uma grande turma de trabalhadores
amanheceu na parte sul da chamada ilha
do Pina cavando e removendo areia. Mais adiante outra
turma precedida de técnicos ia demolindo os mocambos
e demarcando os terrenos. Célere espalhou-se a notícia:
o governo em continuação às obras, já então em franco
progresso, das avenidas Cabanga, hoje (Saturnino de
Brito) e Ligação, ia construir uma avenida à beira-mar
ligando o Recife à praia de Boa Viagem”.

Em novembro de 1923, o Pina ganharia uma linha
regular de transporte. Arlindo Teles, atento a demanda dos
veranistas, inaugurou uma linha de ônibus, partindo do
Cabanga fazendo duas viagens, uma pela manhã e outra à
tarde. Um ano depois a empresa Olinda - Paulista se tornaria
concorrente, implantando uma linha de ônibus que
passava no Pina em direção a Boa Viagem, chegando a fazer
oito viagens por dia do centro de Recife até a praia.
A partir das obras de modernização do porto foram
desencadeadas as mais significativas transformações urbanas;
primeiro a implantação do Sistema de Esgotamento
da Cidade, seguido da ampliação da ponte permitindo a
passagem do bonde, a construção da Avenida de Ligação
(Herculano Bandeira) em 1923 e a Avenida Beira-mar concluída
em 1924. Os serviços foram custeados pelo Departamento
Geral de Viação e Obras, sendo executados pela
Administração do Porto.
Com a conclusão das obras, os bondes elétricos
realizando transporte público chegaram efetivamente no
Pina em 1924, fazendo terminal na praia em frente ao atual
posto 2 de salva-vidas, criando uma linha regular para o
bairro facilitando o transporte de material de construção,
alimentos, e passageiros. No ano seguinte, o bonde atingiria
o Terminal de Boa Viagem.
O Pina havia se tornado um balneário com uma vida
cultural intensa; em setembro de 1925, foi inaugurado pela
Companhia Divercional do Pina, o Cassino do Pina, uma
casa de madeira; “um ambiente familiar” que executava
músicas de quarta a domingo, com uma programação variada
que ia de jornadas de pastoril, bumba-meu-boi, rodas
de coco à refinadas bandas de jazz e fox-trot. Funcionando
como casa de jogos, oferecia bar, restaurante, banhos,
quartos de hospedagens e local para os banhistas trocarem
de roupas; além do aluguel de roupas de banho, cadeiras e
barracas de lona trazidas da Europa. Concorrendo assim
com as singelas barracas de palha construídas pelos nativos
pescadores para atender aos banhistas.
A construção da Avenida Beira-mar havia impulsionado
o desenvolvimento da orla; a via larga com suas
calçadas amplas propiciavam um passeio maravilhoso do
Pina até Boa Viagem, com vista para o coqueiral e para
as águas calmas, ocultas por vezes pelas dunas de areias
brancas. A luz elétrica havia substituído os lampiões a gás,
fora instalada nas vias principais, ficando o restante da
comunidade, à luz de candeeiro.
As classes dominantes ocupam as faixas de terra
firme, reorganizam as formas de apropriação e ocupação
do espaço urbano, elaborado segundo o modelo capitalista;
em contraposição a população pobre edificou sua moradia
a partir de condições materiais precárias; desenvolveu
técnicas utilizando-se da madeira extraída do mangue,
da palha de coqueiro, das tábuas das barricas de cimento
trazidas para as obras do porto e do que lhe vinha à mão,
reaproveitando os materiais, recriando sua arquitetura
construindo um universo sócio-cultural próprio, resultante
do processo de exclusão. Nesse contexto, as relações sociais
ganhavam novos significados, a aglutinação em torno da
moradia e da pesca eram as garantias da sobrevivência da
comunidade naquele local, excluídos do centro urbano a
população ia encontrando espaço nas terras alagadas no
entorno da cidade.
A BAIANA DO PINA. Uma mulher negra de nome Maria
Fortunata, mudara-se de Jaboatão para o bairro; onde
estabeleceu seu terreiro na virada do século. Grande parte
da população afro-descendente consolidou sua organização
em torno dessa liderança do Xangô, sempre disfarçando
com o catolicismo sua identidade religiosa, mantendo viva
a tradição cultural.
O terreiro da Baiana do Pina em 1917, era um dos
maiores do Recife, cercado e coberto de palha, o terreno foi
concedido pelo Coronel João Guedes, que era o responsável
pelas terras da Santa Casa de Misericórdia, no bairro.
Desde o início da colonização, havia em Pernambuco
repressão às religiões afro-descendentes. Em vários momentos
da história, as lideranças espirituais dos terreiros foram
intimadas a prestar depoimento à polícia, que monitorava
sistematicamente às atividades dos líderes mais resistentes.
No período da república conhecido como Estado Novo se
impôs a maior censura, reprimindo os cultos. “As lideranças
dos Xangôs do Recife perceberam que se tornaria perigoso
continuar praticando os toques disfarçados nos ensaios do
maracatu”. (REAL, 2001)

Conta-nos Maria de Sonia que:
“Nesse tempo o Xangô da Baiana do Pina, foi fechado
pela polícia... levaram tudo do Xangô dela, as imagens,
as taças, os tachos, tudo.... Ela andou que só, para
reaver as taças, os apetrechos....” O Pina sempre foi
forte no Xangô; madrinha Santa, freqüentava o Terreiro
da Baiana do Pina”. (SILVA, 1990)
Maria Fortunata havia deixado seus Filhos de Santo
espalhados pelo bairro e muitos deles, apesar das dificuldades
abriram seus terreiros; quando a Baiana morreu, Lídia
abriu o terreiro dela no Encanta Moça; depois, foi Dadai,
seguida de Antonio Cabritinha e Eudes Chagas. Nesse tempo,
eram quatro terreiros; só depois é que Maria de Sônia
abriu o terreiro dela, em 1940. Hoje são 12 os terreiros de
Xangôs no bairro do Pina.

Nesse período, eram por vezes tolerados ou reprimidos
pelo estado; no entanto, todos os finais de semana
havia toque para os orixás; o comissário do Pina envolvido
com os moradores, fazia vista grossa.
Em Casa Amarela e outros bairros, a situação era
mais crítica; então surgiu a idéia da fundação de uma agremiação
carnavalesca, a Troça Mista Rei dos Ciganos, filiada
a Federação Carnavalesca de Pernambuco em 10 de outubro
de 1938, sua sede provisória foi inaugurada em Beberibe,
sendo estrategicamente transferida para o bairro do Pina,
onde havia mais liberdade de culto. Essa agremiação era
um Xangô disfarçado, foi idealizada por Dona Santa, Rainha
do Maracatu Elefante e outras lideranças, ficando sob
a responsabilidade de José Eudes Chagas, Babalorixá que
mais tarde se tornou o Rei do Maracatu Porto Rico.
“Na sede da troça Rei dos Ciganos, os bailes eram organizados
de acordo com a cor do Orixá do mês, essa
atividade funcionou sem ser incomodada, recebendo
os irmãos de outras comunidades em bailes muito
concorridos. Com o fim da repressão cessaram as
perseguições aos cultos afro-brasileiros, e os terreiros
reassumiram suas atividades”. ( REAL, 2001)
A Troça tornou-se de fato uma agremiação carnavalesca,
encerrando seus bailes com a função religiosa e
Eudes Chagas oficializou naquele endereço, Rua Doze de
Julho, o Palácio de Ogum, onde instalou a sede da Nação
do Maracatu Porto Rico.

Após esse período, foi observada na comunidade a
abertura de vários terreiros para realização dos cultos das
religiões afro-descendentes, chegando a ter treze terreiros
em funcionamento na década de 1970. Nas águas da praia
do Pina eram realizados rituais e depositadas as oferendas
nas festas de Yemanjá.

O Pina havia deixado de pertencer à paróquia de
Afogados no início do século XX, passando a ser Paróquia
Nossa Senhora do Rosário, tendo o Padre José Fernandes
Machado a responsabilidade de construir a Igreja Matriz que
até então era uma capela de madeira, onde se realizavam as
missas de páscoa, as santas missões e as missas de Natal; a
inauguração da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário
em 1932, foi um grande acontecimento, passando a realizar,
além das missas semanais, as novenas, as procissões da
Padroeira, as procissões da páscoa, de São José e muitos
casamentos e batizados.

O Padre José Fernandes, no princípio, manteve relações
pouco cordiais com a comunidade dos terreiros; só depois
se tornaria mais flexível. Sob a proteção da irmandade
de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, muitos escravos
haviam conquistado a liberdade num passado recente e o
Padre José sabia disso.
Além da Igreja Matriz do Rosário, sob o comando do
Padre José, foi construído o Convento dos Capuchinhos na
Areinha, a Capelinha do Menino Jesus na Avenida Conselheiro
Aguiar, o Patronato da Conceição na ilha do Bode e
a Igreja de Brasília Teimosa.

As igrejas protestantes apareceram nesse período,
eram construções em madeira que progressivamente foram
substituídas por templos em alvenaria; a igreja Batista foi
à primeira, seguida da igreja Presbiteriana. Devido a tradição
católica poucos eram os fieis que freqüentavam essas
congregações.

A sociedade se organizava e pouco a pouco foi se desenvolvendo
o comércio. É da década de 1920 a instalação
do Cinema de Zinco, uma sala de projeção toda revestida de
flandres com cadeiras de madeira; seria a mais nova onda
da praia; só depois, na década de 1940, o grupo Luiz Severiano
Ribeiro inaugurou o Cinema Atlântico, uma edificação
construída em estilo Art Decor, na sua fase áurea exibia
estréias nacionais e estrangeiras, atingindo sua capacidade
máxima de cerca de 350 lugares. Foi um dos únicos cinemas
de bairro que não virou igreja evangélica; sendo adquirido
pela Prefeitura do Recife que o transformou em 1985, no
Teatro Barreto Júnior, um equipamento de perfil eclético
que acolhe espetáculos de teatro adulto, infantil, dança e
musica, além de promover projetos de formação de platéia
para a comunidade.
O Palanque do Pina, na década de 1930, foi instalado
na beira da praia, apresentava nos finais de semana
de verão, as atrações dos ciclos festivos, bumba-meu-boi,
mamulengo, concorridas jornadas de pastoril, retretas e os
ritmos importados como o tango, o foxtrot e o jazz; havia
ainda parque de diversões e serviço de alto-falante.
Nesse mesmo período, a zona de prostituição se
instalou na área próxima à Colônia de Pescadores Z1 do
Pina. As colônias de pescadores haviam sido criadas pela
Marinha para organizar os pescadores com o intuito de ajudar
na proteção da costa brasileira no período da Primeira
Grande Guerra.
A prostituição se instalou na localidade denominada
Curral das Éguas, próxima ao Cassino do Pina e ao Cinema
de Zinco. As mulheres do porto do Recife vinham passar as
tardes com seus acompanhantes na praia e se agradavam
do local. Eram várias as opções de diversão no bairro; havia
o Estoril, que alugava roupas de banho e diversas gafieiras
espalhadas dentro do bairro; algumas eram verdadeiros clubes
sociais; os nomes eram pitorescos: Jangadeiro, Pau no
Meio, Tubarão do Pina, Quebra as Pregas, Banhistas do Pina,
Combinado, Acadêmicos, 12 de Julho, Pra sempre no meu
Coração, Danúbio Azul, Prato Misterioso, Roda de Cordeiro,
Bandeirantes e os bares. O Cassino Americano chegou no
início da 2ª Guerra Mundial, quando os aliados americanos
instalaram a base de comunicação Rádio Pina numa das
ilhas. Os americanos passaram a freqüentar o bairro fazendo
grandes orgias nos cassinos e bares, mudando a rotina dos
moradores. Por tudo isso, o Pina se tornou mais uma vez,
estigmatizado pela população burguesa do Recife.
Nesse período, ocorreu a transformação do antigo
bar Maxime em restaurante, oferecendo a peixada que mais
tarde teria fama internacional; depois seria inaugurado o
Bar e Restaurante Pra vocês, a Feijoada do Jaime, Feijoada
do Leopoldo, Feijoada do Nadinho, as Churrascarias Pajuçara,
Churrascaria Mocambo e a Toca do Guaiamum; até
hoje o bairro segue sua vocação gastronômica.

A intensidade das atividades culturais crescia nas
praias de Recife e Olinda; causando o interesse jornalístico
da imprensa; alem dos jornais de grande circulação, registram-
se os jornais de praia, de circulação limitada, com
nomes que denunciavam seu conteúdo: em 1915, circulou O
Veranista; é de 1925 o PINA-JORNAL, que fazia a diversão
dos moradores, com textos engraçados, críticos e informativos;
um ano mais tarde, em 1926, seria lançada O Pina
Esportivo, que enfocava prioritariamente o futebol.
O Jornal das Praias, o Jornal de Verão, e o Verão são
de 1927; outros periódicos praieiros circularam na década
de trinta, são eles Rumo ao Mar, Verão, O Sol, O Balneário.
Mais recentemente o PIN’ALISTA, de vida curta, oferecia
serviços, cultura e divulgação do comércio local.
Dando continuidade às obras do Porto, efetuou-se
em 1930, o aterro da área triangular formada pelo dique
do Nogueira e os arrecifes, conhecida como Cais do Areial,
situada no extremo norte da ilha do Pina.
O Estado comprou aos herdeiros do Barão do Livramento
em 1934, o domínio útil dessa área de mar, que a
partir da dragagem das areias da Coroa dos Passarinhos se
constituiu no Areial Novo, (Brasília Teimosa).
A Coroa dos Passarinhos é a parte de terra que aparece
no meio da Bacia do Pina na maré baixa, no passado
se constituía de areia branca com uma vegetação rasteira
e os jovens do Bairro de São José se aventuravam naquele
local para tomar banhos nas tardes ensolaradas.
O objetivo do Governo era a implantação do Parque
de Inflamáveis do Porto, que nunca chegou a ser executado,
porque a Colônia de Pescadores Z-1 do Pina, obteve
em 1953 a autorização para ocupar parte do Areial Novo,
organizando os lotes para o assentamento dos seus associados,
legitimando a entrada da população local e dos
pescadores do Cabanga deslocados desde 1952, quando
um incêndio criminoso queimou os mocambos existentes
naquela localidade.

Em 1957 e 58, uma grande seca em Pernambuco
trouxe um contingente de retirantes para o Recife; parte
dessa população viria ocupar o Areial Novo, onde foram
construídas casas por toda a área efetivando-se a comunidade
de Brasília Teimosa. O nome Brasília foi tomado de
empréstimo da Capital Federal em construção na época, o
nome Teimosa remete à teimosia da população que construía
as casas à noite e a polícia derrubava de dia; foi uma
grande luta do povo pela posse daquelas terras.
As transformações urbanas aceleraram a ocupação
das terras do Pina; e outras camadas sociais haviam chegado
para morar no bairro, funcionários públicos, bancários
e comerciantes possibilitaram o crescimento da economia
local desenvolvendo o comércio e os serviços; fazendo circular
mais dinheiro.
Desse período é o aparecimento das famílias árabes,
os Mucarbel, os Cabuz, os Cabaz, os Azzin, que compraram
lotes no Pina e construíram casas com arquitetura portuguesa
de influência árabe, alterando alguns costumes da
população.
As casas de moradia eram os bangalôs de veraneio,
construídos em madeira com alpendres, paredes dupla e

forro de lambris; as técnicas desenvolvidas e a tipologia
dessa construção seriam, mais tarde, investigadas e registradas
em fotografias por José Tavares de Lira e Marilia
Perruci, sob orientação da professora Vera Milet, resultando
no estudo, PINA - Imagens e Representação Simbólicas do
Morar, UFPE-1990.
As casas de alvenaria foram edificadas na beira-mar
e nas vias principais em substituição as de madeira, casas
confortáveis com terraço, três quartos, salas amplas, telhado
em quatro águas, muros baixos e quintais com fruteiras,
os modelos eram adaptados ao local.
Tradicionalmente, essa elite não se envolvia com
os moradores mais pobres. Com o crescimento das famílias
e a convivência na praia, espaço democrático onde se
encontravam nos finais de semana, essa população veio a
se integrar rapidamente, muitos serviços eram realizados
pelos moradores mais pobres.
O divertimento dos meninos das classes mais abastadas
do Pina era pescar na maré com os filhos de pescadores,
ou jogar futebol até o cair da tarde, para depois tomar
banho no Trapió.
No plano nacional enquanto o governo de Getúlio
Vargas criava as leis trabalhistas, os governos estaduais
usavam artifícios para o desenvolvimento urbano, favorecendo
os interesses do capital.
O crescimento imobiliário impôs seu preço, exigindo
a abertura das grandes avenidas, destruindo os Mocambos;
tipo de habitação que se desenvolveu na região mesclando
técnicas e saberes do povo, adaptando-se as possibilidades
e as limitações materiais do meio, herança dos africanos e
ameríndios, com influência européia. Expressão da arte e
dos saberes construtivos populares.
O progresso chegou no Governo Agamenon Magalhães
1937-1945 com um projeto denominado, Liga Contra
os Mocambos; tinha o claro objetivo de remoção dos mocambos
situados nas vias de passagem do desenvolvimento. O
governo construiu vilas populares para os trabalhadores,
a Vila Operária, Vila das Lavadeiras, Vila dos Comerciários
transferindo parte dessa população para bairros bem longe
do centro e da praia. Essa lógica continuaria a ser a tônica
do desenvolvimento urbano dos governos que se seguiram,
como exemplos temos os conjuntos habitacionais, localizados
nos bairros periféricos e cidades da região metropolitana
do Recife como Jaboatão dos Guararapes e Paulista.
Em março de 1940 foi inaugurado no bairro do
Ibura, o Aeroclube de Pernambuco, sendo transferido no
ano seguinte para o Encanta Moça no Pina; não causaria
grande impacto na população pois foi instalado num areial
desabitado. Tampouco seria uma novidade porque, desde
o início desse século, os moradores haviam se habituado a
ver os hidroaviões pousarem nas águas da Bacia do Pina
por ocasião da primeira grande guerra. O cone de segurança
do Aeroclube seria durante muitos anos um limitador
para a construção de prédios altos no bairro, garantindo a
permanência de casas térreas com imensos quintais e as
habitações populares.

As escolas públicas chegaram e junto vieram as particulares.
Na década de 1950, foi construída pelo Estado,
no local do antigo Lazareto, as Escolas Reunidas Landelino
Rocha. Nesse período, foi inaugurada a Escola particular,
Santa Joana D’Arc, da saudosa Dona Cacilda Montenegro.
Muitos jovens estudaram também no Ginásio Dantas, na
Rua Capitão Rebelinho, onde se via um frondoso Flamboyant
derramando flores vermelhas na rua ainda de areia
branquinha. Restou no bairro, de um período mais recente,
a Escola Nossa Senhora do Lorêto, próximo ao Conjunto
Pernambucano.
Os aterros fizeram desaparecer os contornos das
ilhas do Pina, alterando sua geografia. A necessidade do
progresso interferiu no arranjo espontâneo do ordenamento
urbano produzido pelo povo do bairro. O bonde se tornara
obsoleto e a indústria automobilística havia substituído
esse meio de transporte sendo imperativo, a construção de
uma ponte mais moderna para comportar o fluxo de automóveis
e ligar a zona sul ao centro do Recife. Seria então
construída a Ponte Agamenon Magalhães paralela à velha
ponte do bonde.
Com a conclusão da nova Ponte do Pina em 1953,
aquela ponte de ferro e lastro de madeira que tanto havia
servido aos banhistas, impulsionando o crescimento da
cidade, foi demolida, substituída por uma mais moderna
com duas largas vias, foi edificada com a tecnologia mais
avançada da época.
Na década de 1968, a Avenida Antonio de Goes,
foi projetada para ligar a Beira-mar à Ponte Agamenon
Magalhães; nesse trecho existia a Rua do Jasmim e um
traçado de ruas estreitas com um amontoado de casinhas
residenciais de madeira; mais próximo à praia se localizava
o Curral das éguas, uma rua estreita com bares e casas de
madeira, fazia parte da zona de prostituição, foi demolida
para dar passagem ao “ progresso”. Muitos senhores de
hoje ainda recordam as tardes de final de semana passadas
nesse recinto, onde a maioria relembra os bons tempos da
juventude. A Zona de prostituição do Pina tinha a característica
de ser um ambiente mais descontraído que o cais
do porto, sua situação à beira- mar, seu funcionamento
diurno e noturno possibilitava que jovens se iniciassem
naquele local.
A rotina tranqüila da população do Bairro do Pina
parecia não ter pressa, muitas mães de família chegaram
à década de 1960, cozinhando em fogão a carvão, como
também muitas lavadeiras prestavam serviços às madames
de Boa Viagem passando as roupas com ferro a brasa. O
cheiro de lenha queimando, misturado a brisa salgada,
criava uma atmosfera característica e local. Lavagem de
roupas era atividade corriqueira; passando pelo bairro sempre
se via mulheres estendendo roupas em girais de palha
conhecidos como quarador. O abastecimento de água era
através de cacimbas e em chafarizes que apareceram com a
primeira ponte de ferro, que trouxe água encanada para as
ruas principais. Muitos desses chafarizes foram instalados
por políticos em tempo de campanha, Nilton Carneiro foi
um desses.

Nas marés grandes, muitas casas ficavam inundadas
e não era novidade, à tardinha, verem-se trechos de ruas
alagadas com uma água escura que aparecia calmamente
trazendo peixes e desaparecia quando a maré baixava; a
população habituada nem reclamava, pois sabia que havia
tomado aquele pedaço de chão do mangue. Na memória de
alguns moradores ainda encontram-se lembranças do entregador
de leite nas portas das casas, os pregões melódicos
de verdureiros e peixeiros, dos amoladores de tesouras ou
do homem que remendava panelas de alumínio, passava
batendo com um ferrinho em uma frigideira, fazendo um
som inconfundível; vendedores de algodão doce e o som da
campânula do vendedor de picolé D’aqui empurrando seu
carrinho; com a chegada da modernidade algumas dessas
profissões caíram em desuso.
O comércio no pátio da feira era imenso, se assemelhava
às feiras do interior com os produtos trazidos de
Vitória de Santo Antão, Cabo de Santo Agostinho e outros
municípios; funcionava aos sábados, havia todo tipo de
produto: tecidos, carne fresca, animais vivos, utensílios,
verduras, frutas, feijão, farinha e roupas.
A população comprava também nas vendas, na memória
ficou o comércio de Otávio Ferrão, estabelecido no
bairro na década de 1920, a farmácia de seu Gomes, a lojinha
de seu Antonio Cerzidor, a padaria Pão Nosso, o comércio de
Severino Pierre e as miudezas de Paulo Alfaiate.
A pesca sempre foi uma atividade importante na
comunidade do Pina. Pescadores profissionais iniciavam
sua atividade ainda meninos, aos 13, 14 anos de idade;
encontramos relatos de pescadores que nos anos 1910 á
1920, ainda garotos se metiam mar a fora em solitárias
pescarias de jangada, saindo na madrugada e regressando
à praia no final da tarde, mostrando a intimidade que essa
população adquiriu com o mar ao longo dos anos.

O trabalho na praia era intenso; ao amanhecer, os
“lutadores” se ocupavam em rolar os toros de coqueiros para
levar as jangadas até a água; no final da tarde repetiam
essa operação no sentido inverso, recebendo as jangadas
que regressavam com o pescado para ser comercializado ali
mesmo na beira da praia.
A pescaria era também praticada por amadores,
simplesmente como passatempo; sendo morador do Pina,
quem nunca se aventurou na pesca? Todos os dias muitos
jovens e senhores apareciam na praia com varas de caniço,
aproveitando a fartura do pescado; peixes, guajás, polvos,
lagostas, eram pescados com facilidade nas piscinas naturais
do Pina. Nas férias, se pescava pela manhã cedinho;
voltava-se em casa para o café da manhã, regressando
a praia lá pelas dez horas para a tradicional partida de
futebol, popularmente chamada de Pelada. Formavam-se
vários campos improvisados com troncos de coqueiros na
areia. Era muito agradável à sensação de liberdade que a
praia propiciava.
Os primeiros jogos de futebol no bairro aconteceram
na década de 1910, nas areias da praia, entre os pescadores
da colônia Z1 do Pina e os trabalhadores das Oficinas do
Porto. Essa empresa cedeu o terreno e construiu o antigo
campo de futebol do Centro Esportivo do Pina, cercado de
blocos que sobraram das obras do porto.

Ponte do bonde - acervo Museu da Cidade do Recife
Ponte do Pina (Agamenom Magalhães) - acervo Museu da Cidade do Recife

Barracos para venda de coco verde e posto de salva-vidas -- acervo Museu da Cidade do Recife
Praia do Pina - acervo Museu da Cidade do Recife

Praia do Pina - acervo Museu da Cidade do Recife
Bacia do Pina, ao fundo o Bairro do Pina - foto: Oswaldo Pereira

Rei e rainha do Maracatu Nação Porto Rico - Foto: Marcelo Bulhões
Praia do Pina - Recife (atual) foto: Carlos Andre

Algumas partidas do Campeonato Pernambucano de
Futebol Amador, aconteciam nesse campo; os times eram
apresentados em dois quadros: o primeiro e o segundo quadro.
O Centro Esportivo do Pina e o Expressinho foram os
times que perduraram; Além desses, existiram o Cruzeiro
Futebol Clube fundado em 1923, o Oceania Futebol Clube,
o Jangadeiro, o Olaria, o 11 da Conceição, o Atlas, o 11 da
Paz, o 12 de Julho, o Colônia Z1 do Pina, o Juventus, o
Arco, e o Combinado Futebol Clube. Os espaços de areial
eram aproveitados como campos de treinamento. No local
onde é hoje o Conjunto Pernambucano existiu durante anos
o campo do Olaria. No campo do Pina a população pagava
ingresso para assistir aos jogos amistosos e do campeonato.
No final dos anos 1980 o antigo campo do Pina foi
transferido para a beira do rio para dar lugar a um projeto
habitacional popular.

Muitos desses clubes tinham sede própria e realizavam
bailes dançantes. Em alguns finais de semana registravam-
se seis gafieiras em funcionamento e vários terreiros
de Xangô tocando ao mesmo tempo, fazendo do bairro um
local de muita dança e muita animação.
A explosão demográfica de Boa Viagem na década
de 1970 e início de 1980, foi efetivada com a demolição dos
casarões residenciais da beira da praia e a construção de
prédios modernos com vários andares, verticalizando as
habitações, adensando a população e exigindo a construção
de novas avenidas e outra ponte no Pina.
Em 1974, depois de muita negociação foi concluída
a desapropriação das casas para a construção da Avenida
Conselheira Aguiar. A relação do poder público com a classe
média que ocupava aquela área se deu sem muitos conflitos,
o mesmo não ocorreria, dois anos mais tarde com os moradores
da área da Avenida Domingos Ferreira, onde habitava
a população mais pobre. Em pleno regime autoritário a falta
de habilidade ou descaso do poder público municipal, dificultava
os acordos de indenização das áreas desapropriadas
para a passagem da Av. Domingos Ferreira. Sem negociação,
as maquinas chegavam e demoliam as casas, forçando a
indenização de um imóvel que não existia mais, num chão
sem titulação de posse. Na conclusão da Avenida Domingos
Ferreira em 1976, muitas famílias foram expulsas do bairro
depois de muita resistência; o poder público queria pagar
só a benfeitoria, avaliando os imóveis muito abaixo do valor
real; não consideravam a posse do chão. O Padre Jaime
um grande homem de nacionalidade americana, adepto da
Teologia da Libertação, respondia pela Paróquia do Pina;
foi sensibilizado no momento do conflito se envolvendo na
luta dos moradores, sendo preso a bem da lei de “Segurança
Nacional”. Em 1979, com a sua ajuda, Zeca Matos e outros
moradores fundaram a União dos Moradores do Pina para
defender a população mais pobre.

A Ponte Paulo Guerra foi edificada no local da extinta
ponte do Bonde, refazendo a ligação direta do Cabanga
com a Avenida Herculano Bandeira, que por sua vez daria
acesso aos corredores de tráfego: Avenida Domingos Ferreira,
Conselheiro Aguiar e Avenida Boa Viagem, já repletas de
prédios em toda sua extensão; todas essas vias tem inicio
no Pina, indo até Boa Viagem e são na atualidade vias essenciais
para o fluxo da Zona Sul.

Ainda no início da década de 1980, a Federação de
Moto Cross de Pernambuco organizou competições do campeonatos
de Moto Cross, nas dunas do Pina; eram eventos
que, pela sua novidade, mobilizavam a comunidade, levando
à beira-mar uma multidão que ia assistir às competições.
A Prefeitura do Recife nos meados dos anos 1980,
com as obras de urbanização da orla, alteraria drasticamente
o que restou da paisagem natural da praia do Pina,
destruindo a ondulação natural formada pelas dunas e
sua vegetação nativa, construindo em seu lugar três campos
de futebol e as quadras poli-esportivas. A orla recebeu
iluminação e tratamento paisagístico; essa nova paisagem
veio se juntar aos jardins urbanizados, já existentes do
lado de Boa Viagem. Posteriormente, a Sociedade Hípica
de Pernambuco organizou competições de Hipismo na orla
recém construída; esse evento trazido pela alta sociedade
também mobilizaria a comunidade, que acorria para assistir
às competições.

O povo praieiro tem seu ritmo, vivendo uma vida
simples; o lazer continuou sendo voleibol e o futebol na
praia, que passaram a ser praticados também à noite por
conta da iluminação dos campos e das quadras. A cultura
popular manteve-se com os tradicionais Bloco Banhistas
do Pina, o Clube de Frevo Tubarão, os Ursos Polar do Pina
e Urso Zé da Pinga, a Troça Rei dos Ciganos, as Escolas de
Samba Bateria 50, Escola de Samba Vai Vai, Bateria São
Luiz, as Quadrilhas Juninas e os Maracatus Porto Rico e
o Encanto do Pina.

Os moradores haviam aterrado as áreas alagadas de
maré e o poder econômico se apossou desses acréscimos,
reivindicando o espaço urbano conquistado pela população
pobre, que iludida com o progresso foi empurrada para
dentro do bairro longe da beira-mar, mais perto da maré.
Muitos lotes resultantes de aterros apareceram em mapas e
plantas oficiais, como se existissem há séculos em nome de
proprietários que nunca estiveram no bairro: são exemplos, o
Seminário de Braga, em Portugal e Lúcia de Souza Gouveia,
que reivindicaram lotes, onde mais de cem famílias residiam
há anos. Graças à luta, através da União dos Moradores do
Pina, a justiça deu ganho de causa à população.
A cidade do Recife dos anos 1980 caracterizou-se
pelas lutas comunitárias das Associações de Moradores
em favor da população mais carente. O processo de
democratização havia propiciado a reorganização política da
militância de esquerda, egressa da Igreja progressista, em
torno da posse da terra, do direito à moradia. A abertura
política trouxe a tona o engajamento em torno dos ideais
democráticos reprimidos pelo regime ditatorial de 1964. A
União dos Moradores do Pina e o Conselho de Moradores
de Brasília Teimosa tornaram-se referenciais fortes na
luta da comunidade. Em 1983, por força das pressões
exercidas pelos movimentos sociais do Recife, foi proposta
a modificação da Lei de Uso e Ocupação do Solo.
O Plano de Regularização de Zonas Especiais de Interesse
Social – PREZEIS da Cidade do Recife, implantado em
1987, foi pioneiro no Brasil, fundamentado no princípio da
função social da propriedade e na flexibilização dos modelos
urbanísticos. Com a lei do PREZEIS, foi instituído um novo
modo de pensar: a urbanização, caracterizando o respeito
às formas de ocupação do espaço pela população pobre.
A Lei Municipal nº 1.4947 de 1987, que instituiu o
Plano de Regularização das Zonas Especiais de Interesse
Social se tornou um instrumento jurídico que viabilizaria
a urbanização e regularização fundiária das áreas (ZEIS);
com mecanismos inibidores da especulação imobiliária,
restringindo o remembramento de lotes e proibindo a construção
de edifícios acima de três pavimentos; com o claro
objetivo de deter o avanço selvagem da especulação. Foi
assim que se garantiu a permanência das populações de
toda a Brasília Teimosa e de parte do Pina compreendendo
a área do Encanta Moça, Comunidade do Bode e parte do
Jardim Beira Rio.

Em 1979 o Conselho de Brasília Teimosa intermediado
pela Prefeitura do Recife solicitou ao Serviço de
Patrimônio da União – SPU, o repasse dos aforamentos
das terras de Brasília Teimosa para os moradores, sendo
a concessão oficializada no Diário Oficial da União em 28
de setembro de 1979. Foi uma das primeirs áreas urbanizadas
com recursos do BNH num programa denominado
PRO-MORADIA.
O Projeto Teimosinho, da comunidade de Brasília
Teimosa, foi o primeiro projeto de urbanização no Recife
discutido e organizado pelos movimentos sociais; logo em
seguida veio o Projeto Pina Ações Imediatas, contou com
recursos do BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social, a execução foi realizada pela Prefeitura

do Recife, foram pavimentadas varias ruas e becos, construída
a Escola Municipal Novo Pina e a Creche modelo do
mesmo nome. A luta de conscientização para beneficiar
essas comunidades, contou com os Grupos de Teatro de
Rua, Teimosinho e Mais Um, em Brasília Teimosa e o Mamulengo
Quiabo Duro no Pina, que encenavam na rua e
nas assembléias os protestos, a história e as reivindicações
do povo, além da Rádio Cultura da União dos Moradores
do Pina criada em 1987, que fez escola nos movimentos
sociais do Recife.
A proposta do Projeto Teimosinho de Brasília Teimosa
retirava as palafitas da orla, recolocando os moradores
na vila da Prata, isso ocorreria em 1982, como não foi implantada
a urbanização da orla; a beira-mar foi ocupada
novamente.

A segunda retirada das palafitas aconteceu em 1986,
alocando as famílias em um terreno das oficinas da PORTOBRAS,
cedido a Prefeitura do Recife, onde foi construída
a Vila Moacir Gomes; mais uma vez não realizaram a urbanização
da orla e ocorreu nova ocupação. Outro projeto
habitacional foi implantado em 1989 retirando as famílias
para a Vila Teimosinho, outra vez a área foi ocupada. Logicamente
essas reocupações serviram para acomodar os
interesses de grupos locais.
Os bairros do Recife reivindicavam infra-estruturas
básicas, como água, iluminação e transporte; a Brasília
Teimosa destacou-se por usar como instrumento de luta a
Cultura Popular, especialmente o Teatro e a Música.

Nos anos 1990 e 2000, as associações comunitárias
perderiam força, à medida que foram implantados mecanismos
participativos como: A Prefeitura nos Bairros, na
gestão de Jarbas Vasconcelos e a Secretaria de Orçamento
Participativo, na gestão do Prefeito João Paulo; esses instrumentos
de participação possibilitaram as discussões em
plenárias, onde às comunidades decidiam as prioridades
das ações de urbanização a ser executada pela Prefeitura.
As grandes avenidas dotaram o Pina de infra-estrutura
viária para servir de passagem para o crescimento de
Boa Viagem, que se expandiu até os limites do Pina; passando
esse bairro a fazer parte do interesse especulativo das
grandes incorporadoras, que adquiriram lotes, construindo
imóveis modernos de alto padrão econômico, de modo que a
mudança da paisagem do Pina com prédios altos confundiria
os limites entre um bairro e outro.

A intervenção da Prefeitura do Recife, em 2003,
para facilitar a circulação dos veículos na Zona Sul da
cidade; exigiu a inversão do trânsito nos principais corredores
viários do Pina e Boa Viagem, melhorando o fluxo e
a circulação dos veículos nas vias locais. Ação contestada
pelos comerciantes e alguns oponentes a gestão publica;
tão logo se fez a inversão perceberam-se os benefícios para
circulação e o comércio.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, logo após a
posse do seu primeiro mandato em 2003 visitou no Recife
as palafitas que beiravam a orla de Brasília Teimosa; se
comprometendo a mandar recursos para a execução do
projeto de urbanização pela Prefeitura do Recife. O plano

a integração da orla marítima de Brasília Teimosa tendo
como diretriz política aliar a remoção das habitações em
risco, (as palafitas) a requalificação urbanístico-ambiental
da praia para uso publico teve início. A população das
palafitas foi relocada para um conjunto habitacional no
bairro do Cordeiro. Esse projeto de urbanização propôs a
engorda da praia, a criação de uma avenida, uma faixa de
areia “praia seca” tendo em média 40 metros de largura,
com iluminação, quiosques e equipamentos de esportes e
recreação para crianças, também foi recuperado o muro de
proteção sobre os arrecifes num trecho de 960 metros entre
o molhe no Pina e a praia do Buraco da Velha. A cidade foi
beneficiada com uma praia urbanizada e Brasília Teimosa
passou a fazer parte da paisagem de praia urbana, compondo
com o Pina e Boa Viagem a faixa litorânea recifense. A
conclusão das obras ocorreu em 2004.

Na atualidade está em execução no bairro do Pina a
primeira etapa da Via Mangue; projeto elaborado na década
de 1980 e modificado ao longo das gestões públicas. Várias
versões do projeto foram propostas; a via suspensa sobre
o mangue foi abandonada devido aos custos e ao impacto
ambiental que causaria; outra proposta relocaria toda a
população ribeirinha construindo uma via de circulação
rápida margeando a maré, a solução definitiva será a recolocação
de parte da população e a penetração por vias locais
existentes. O projeto teve sua primeira faze iniciada em
2006, com a construção do túnel sob a Avenida Herculano
Bandeira. A continuidade dessa obra ligará internamente
os bairros do Pina e Boa Viagem e efetuará a urbanização

do Parque dos Manguezais, uma área verde com um denso
manguezal encravada na parte Oeste do Pina, se estendendo
até Boa Viagem; constitui-se no maior perímetro contínuo de
manguezal em área urbana do estado. Por esses motivos, já
existem pressões e se fala na probabilidade de modificação
da Lei de Uso e Ocupação do Solo, com a redução da Área
de ZEIS, favorecendo ao interesse das grandes empresas
imobiliárias.

O bairro se desenvolveu pela sua localização privilegiada
e grandes investimentos foram implementados empurrando
a população mais pobre para dentro do bairro. Mas
ninguém pensa em se mudar, quer usufruir do progresso
no chão que seus antepassados construíram.
“A comunidade de pescadores e trabalhadores autônomos
foi o ponto de partida de um bairro popular que
ainda preserva seus costumes, cultura viva do povo
praieiro com sua tradição pesqueira. Lutando para
ocupar os alagados a fim de criar um espaço habitável,
venceu adversidades como a lama, a umidade e as
grandes marés, o que ocorre até a década presente,
dando prova de resistência sobre-humana do povo”.
“Hoje depois de séculos de aterros resultando na reordenação
do chão, os moradores travam a luta mais
cruel, contra o especulador imobiliário, que vendo a
grande obra do povo, nega sua história e tenta se
apossar a todo custo desse bairro”. (SILVA,1990)
No entanto o Pina marcou seu nome na história.
Nos momentos de maior tensão e conflitos, outros atores
ocuparam o Pina, decidindo longe seu destino, primeiro
nos sobrados de Olinda, Recife, depois Lisboa, Amsterdã.
500 anos se passaram a história registra fatos e feitos e o
bairro do Pina permanece.

BIBLIOGRAFIA
ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa de. As praias e os dias: história
social das praias do Recife e Olinda. Recife: Fundação de Cultura
da Cidade do Recife, 2007.
BARBALHO, Nelson. 1970, Recife versus Olinda: a guerra municipal
do açúcar. Nobres versus mascates: subsídios para a história
de Olinda, Recife e Vitória de Santo Antão. Recife: Centro de Estudo
de História Municipal, 1986. (Coleção Tempo Municipal, 6).
BARLAEUS, Gaspar. História dos feitos recentemente praticados
no Brasil. Recife: FUNDARPE, 1980.
COSTA, Francisco Augusto Pereira da. Anais pernambucanos: 1493
- 1850. Recife: FUNDARPE, 1983. (Coleção pernambucana, 2).
FERREZ, Gilberto. Raras e preciosas vistas e panoramas do Recife
1755-1855. Recife: FUNDARPE, 1984. (Coleção Pernambucana,
15).
FOLGUEIRA, Manoel Rodrigues (org.). Álbum artístico, commercial
e industrial do Estado de Pernambuco - 1925. Recife: Edição do
autor, 1925.
MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo dos Flamengos. Rio
de Janeiro: J.Olympio, 1947.
MILET, Vera. (cord.) et al. Pina: imagens e representações simbólica
do morar. Recife: UFPE, 1990.
REAL, Katarina. Eudes o rei do maracatu. Recife: FUNDAJ; Massangana,
2001.
SANTOS, Manuel dos. Calamidades de Pernambuco. Recife: FUNDARPE,
1986. (Coleção Pernambucana, 38).
SCHLAPPRIZ, Luiz. Memória pernambucana: álbum para os amigos
das artes. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife,
1863.

SETTE, Mário. Arruar. 2.ed. Rio de Janeiro; Recife: Livraria da Casa
do Estudante do Brasil, 1977. (Coleção Pernambucana, 12).
SILVA, Oswaldo Pereira da. Pina: povo, cultura, memória. Olinda:
Centro de Cultura Luís Freire, 1990.
VELHAS FOTOGRAFIAS PERNAMBUCANAS 1851-1890. 2.ed. Rio
de Janeiro: Campo Visual, 1988.

Este livro foi impresso pela Luci Gráfica sobre papel off set 90g,
composto na fonte Book Man Old Style, corpo 10/14,
para a Fundação de Cultura Cidade do Recife, em 2008.

3 comentários:

  1. Minha avó Maria de Lourdes Batista, nascida no sertão do Rio Grande do Norte na cidade de Parelhas, morou no Recife/PE, trabalhou na Fábrica Peixe e sempre me falou do seu seu tempo de jovem na comunidade do Pina na década de 40, talvez já um bairro em construção, os fins de tarde na ponte, o Cassino, os blocos dos Batutas de São José e Pão duro, depois foi para o Norte do Brasil casada com meu avô Manoel Ribeiro de Alencar, que serviu no exército durante a 2a Guerra Mundial. Nasci em Manaus/AM morei por muitos anos no Bairro de Boa Viagem e em outras grandes Capitais, hoje resido no Pina moderno e estou estou me deleitando com esta Bela história de transformação

    ResponderExcluir
  2. Fico feliz em ver meu bisavô, o Coronel João Guedes várias vezes citado.

    ResponderExcluir